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Mídia, política e poder: como os algoritmos estão mudando a forma como o eleitor se informa

Em um ano eleitoral decisivo, a informação deixou de chegar a todos da mesma maneira; redes sociais, algoritmos e inteligência artificial criam novas formas de consumir política — e também novos desafios para a democracia

👤 Damião Porfirio 📅 12 de agosto de 2026 👁 49 ⏱ 6 min de leitura
Mídia, política e poder: como os algoritmos estão mudando a forma como o eleitor se informa

Durante décadas, rádio, televisão, jornais e revistas exerceram um papel central na formação da opinião pública brasileira. Embora existissem diferentes linhas editoriais e perspectivas políticas, havia uma característica comum: grande parte da sociedade recebia as mesmas informações, nos mesmos veículos e, muitas vezes, nos mesmos horários.

O rádio reunia famílias em torno das notícias. A televisão colocava candidatos, debates e acontecimentos políticos diante de milhões de pessoas simultaneamente. O jornal impresso estabelecia uma agenda de assuntos que seria discutida durante o dia.

Esse cenário mudou profundamente.

Hoje, um eleitor pode acordar e receber no celular uma sequência de vídeos sobre determinado candidato, enquanto outra pessoa, na mesma cidade e utilizando a mesma plataforma, recebe conteúdos completamente diferentes — inclusive com interpretações opostas sobre o mesmo acontecimento.

A diferença não está apenas na escolha do usuário. Está também na forma como as plataformas digitais selecionam e organizam aquilo que cada pessoa vê.

Do meio de comunicação ao algoritmo

Nas redes sociais, o usuário não recebe simplesmente uma programação definida por um editor humano. Plataformas utilizam sistemas algorítmicos para selecionar conteúdos de acordo com uma série de fatores, como histórico de interação, interesses demonstrados, tempo de permanência e comportamento anterior.

O resultado é uma experiência personalizada.

Essa transformação possui vantagens. Nunca foi tão fácil encontrar informações, acompanhar diferentes fontes, ouvir candidatos e acessar documentos públicos. Um cidadão pode assistir a uma sessão parlamentar, conferir uma proposta legislativa ou acompanhar uma entrevista sem depender exclusivamente da programação de uma emissora.

Mas existe um problema: personalização não significa necessariamente diversidade.

Quanto mais uma pessoa interage com determinado tipo de conteúdo, maior pode ser a exposição a materiais semelhantes. Aos poucos, o usuário pode passar a consumir principalmente informações que confirmam aquilo que já acredita.

É o fenômeno frequentemente associado às chamadas bolhas informacionais.

Duas pessoas, duas realidades políticas

Imagine dois eleitores acompanhando a mesma eleição.

Um deles acompanha páginas favoráveis a determinado candidato. Seu feed passa a ser preenchido por vídeos que destacam propostas, discursos e resultados positivos desse político.

O outro acompanha páginas críticas ao mesmo candidato. Para ele, a mesma plataforma apresenta principalmente denúncias, críticas, controvérsias e conteúdos negativos.

Os dois podem passar horas navegando na mesma rede social e terminar o dia convencidos de que estão vendo “a realidade”.

Mas estão vendo realidades informacionais diferentes.

A pesquisadora Eli Pariser, no livro The Filter Bubble (2011), popularizou o conceito de “bolha de filtros” para explicar como a personalização da internet pode limitar a diversidade de informações às quais uma pessoa é exposta.

O fenômeno ganhou ainda mais complexidade com a expansão das redes sociais e dos sistemas de recomendação baseados em inteligência artificial.

O algoritmo não é um editor neutro

É importante compreender que os algoritmos não funcionam necessariamente como uma redação jornalística.

Um jornalista profissional deve seguir critérios editoriais, apuração, verificação e princípios éticos. Já uma plataforma digital possui outros objetivos e modelos de negócio.

Em grande parte dessas plataformas, um dos principais objetivos é manter o usuário conectado.

Por isso, conteúdos capazes de gerar comentários, compartilhamentos, reações e tempo de permanência podem receber maior distribuição.

Isso cria uma questão fundamental para a sociedade:

se aquilo que aparece diante dos nossos olhos é selecionado por sistemas que não conhecemos completamente, até que ponto estamos escolhendo livremente aquilo que consumimos?

Não significa que exista um algoritmo simplesmente “mandando” nas pessoas. O comportamento do usuário também influencia o que aparece.

É uma relação de mão dupla.

Nós alimentamos o algoritmo com nossas escolhas — e o algoritmo devolve conteúdos que podem influenciar nossas próximas escolhas.

A inteligência artificial acrescenta um novo desafio

A expansão da inteligência artificial acrescentou uma camada ainda mais complexa a esse cenário.

Hoje já é possível produzir textos, imagens, áudios e vídeos sintéticos em poucos minutos. Em períodos eleitorais, isso aumenta o risco de circulação de conteúdos manipulados ou fabricados para parecerem verdadeiros.

Um vídeo falso pode colocar na boca de um candidato uma frase que nunca foi dita.

Uma imagem pode apresentar um acontecimento que jamais ocorreu.

Uma voz artificial pode reproduzir a fala de uma pessoa.

Por isso, a alfabetização digital deixou de ser apenas uma questão tecnológica. É também uma questão de cidadania.

O eleitor precisa aprender a desconfiar — inclusive daquilo em que acredita

Talvez um dos maiores desafios da comunicação política contemporânea seja ensinar o cidadão a fazer algo desconfortável: questionar também as informações que confirmam suas próprias convicções.

Quem recebe uma notícia favorável ao candidato de sua preferência pode ter a tendência de compartilhá-la imediatamente.

Mas a pergunta deveria ser:

De onde veio essa informação?

Quem publicou?

Existe outra fonte independente confirmando?

A notícia apresenta documentos?

A imagem é verdadeira?

O vídeo está completo ou foi retirado de contexto?

A informação foi publicada originalmente por um veículo jornalístico confiável ou surgiu em uma página desconhecida?

Essas perguntas simples podem impedir que o eleitor se transforme em um distribuidor involuntário de desinformação.

A democracia depende de um eleitor bem informado

Em um ano eleitoral importante para o Brasil, a discussão sobre mídia, política e poder não pode ficar restrita às universidades, às redações ou aos especialistas.

Ela precisa chegar ao cidadão comum.

A democracia não depende apenas do direito de votar. Depende também da capacidade de cada eleitor de receber informações, confrontar versões, analisar argumentos e tomar decisões com autonomia.

O rádio, a televisão e o jornalismo profissional continuam tendo papel fundamental nesse processo. Mas agora dividem espaço com influenciadores, páginas independentes, aplicativos de mensagens, plataformas de vídeo e sistemas de recomendação.

O desafio, portanto, não é simplesmente escolher entre a mídia tradicional e as redes sociais.

É aprender a navegar entre diferentes fontes sem se tornar prisioneiro de nenhuma delas.

Porque, em uma sociedade em que cada pessoa pode receber uma versão diferente da realidade, talvez a pergunta mais importante antes de compartilhar uma informação não seja:

“Isso confirma o que eu penso?”

Mas sim:

“Isso é verdade?”

E essa pequena mudança de postura pode fazer uma enorme diferença.

Em tempos de algoritmos, inteligência artificial, desinformação e polarização, pensamento crítico não é apenas uma habilidade desejável. É uma ferramenta de cidadania.


 

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