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O Caso Caricé: A Tragédia Que Marcou a Memória de João Pessoa

Em 1989, duas crianças morreram após quedas do Edifício Caricé, no Centro da capital paraibana. O segundo episódio, ocorrido cerca de 30 dias depois do primeiro, provocou comoção e levantou suspeitas que permaneceram na memória de quem viveu aquela época.

👤 Damião Porfirio 📅 05 de setembro de 2026 👁 100 ⏱ 7 min de leitura
O Caso Caricé: A Tragédia Que Marcou a Memória de João Pessoa

No Centro de João Pessoa, entre prédios antigos, comércio e o movimento cotidiano da capital, o Edifício Caricé permanece como uma das marcas do processo de verticalização da cidade. Construído em um período de transformação urbana, o prédio também carrega uma história que, décadas depois, ainda é lembrada por pessoas que testemunharam um dos episódios mais trágicos associados ao local.

Segundo levantamento realizado pelo professor e historiador Emílio, do perfil @emiliohistoriador, a história do Caricé começou ainda na década de 1950. A primeira proposta para o edifício foi elaborada pelos arquitetos Florismundo Lins e Heleny Lins e publicada na Revista Acrópole, em 1959. O projeto previa um bloco único, em formato de “I”, com dez andares e 40 apartamentos.

A proposta acabou rejeitada pelos incorporadores. O principal motivo teria sido econômico: os investidores consideravam que um edifício com apenas 40 apartamentos não aproveitaria todo o potencial de um terreno localizado em uma área valorizada do Centro.

Em 1964, os engenheiros Walter Vinagre e Romildo Marques desenvolveram uma nova proposta. O projeto assumiu o formato de “L” e passou a prever 14 pavimentos e 117 unidades habitacionais. A construção começou naquele ano e foi concluída por volta de 1970.

O Caricé surgia, assim, como símbolo de uma João Pessoa que começava a crescer verticalmente e a modificar sua paisagem urbana.

Quase duas décadas depois, entretanto, o edifício seria lembrado por uma tragédia.

DUAS CRIANÇAS, DUAS QUEDAS E UM INTERVALO DE 30 DIAS

Segundo o levantamento de Emílio, a tragédia aconteceu em 1989 e envolveu dois primos: Tássio, de 1 ano e 6 meses, e Matheus, de 1 ano e 3 meses.

Os dois morreram depois de quedas do Edifício Caricé, em episódios separados por aproximadamente 30 dias.

O primeiro caso teria sido inicialmente encarado como um acidente. A jovem empregada doméstica que cuidava das crianças gozava da confiança da família e, diante da primeira tragédia, não havia, naquele momento, uma suspeita que apontasse para um crime.

Tássio morreu e foi velado no Colégio Pio X, segundo relatos relacionados ao caso.

A família, ainda vivendo o luto, continuou contando com a presença da jovem que cuidava das crianças.

Cerca de um mês depois, porém, uma segunda criança caiu do mesmo edifício.

A repetição da tragédia, envolvendo crianças da mesma família e em circunstâncias semelhantes, provocou uma mudança completa na percepção sobre o primeiro episódio.

O que inicialmente havia sido considerado uma fatalidade passou a levantar suspeitas.

UMA CENA QUE NÃO FOI ESQUECIDA

Entre as pessoas que carregam essa lembrança está Adalberto Regis.

Em comentário publicado na página do historiador Emílio, ele contou que morava com os pais em um apartamento localizado abaixo dos imóveis onde viviam os pais das crianças. Segundo seu relato, as famílias eram amigas.

Adalberto afirmou que estava na portaria do edifício quando aconteceu a segunda queda.

Ele relatou ter visto o corpo da criança cair na entrada do estacionamento.

Décadas depois, a lembrança continuava presente.

“Essa cena nunca saiu da cabeça mesmo 37 anos depois. Foi terrível”, escreveu.

O relato ajuda a compreender a dimensão da repercussão provocada pelo episódio entre os moradores do edifício e pessoas próximas às famílias. A tragédia não ficou restrita às paredes dos apartamentos. Ela foi presenciada por moradores e pessoas que estavam nas proximidades e acabou incorporada à memória de quem viveu João Pessoa naquele período.


A CONFISSÃO DE OSVALDINA

A empregada doméstica, identificada nos relatos como Osvaldina, tinha 16 anos na época.

Segundo o levantamento histórico divulgado por Emílio, ela confessou à Justiça o assassinato das duas crianças.

Ainda de acordo com o relato, os crimes teriam acontecido com intervalo de aproximadamente 30 dias e estariam relacionados, segundo a versão apresentada no depoimento, à perda da amizade com o casal responsável pelas crianças e a sentimentos de ciúmes.

As circunstâncias do caso, porém, chegaram até os dias atuais principalmente por meio de relatos de pessoas que viveram aquela época, pesquisas históricas e registros que sobreviveram ao tempo. Como a documentação judicial daquele período era predominantemente mantida em papel e não está disponível de forma pública e digitalizada, não foi possível confirmar oficialmente todos os detalhes narrados ao longo dos anos.

Por isso, algumas informações sobre o caso permanecem como versões de pessoas que acompanharam os acontecimentos ou tiveram contato com a história na época, sem que tenha sido possível confrontá-las com documentos oficiais atualmente acessíveis.

Os relatos históricos indicam ainda que Osvaldina cumpriu pena na Colônia Penal Feminina Bom Pastor, em João Pessoa.

Sobre sua vida depois do cumprimento da pena, circulam relatos na internet de que ela teria permanecido na capital paraibana, onde constituiu uma família. Essa informação, entretanto, também não possui confirmação documental pública e é tratada apenas como relato sobre o destino da mulher após o episódio.

UMA HISTÓRIA QUE O TEMPO NÃO APAGOU

O caso aconteceu há décadas, mas algumas histórias permanecem vivas porque foram testemunhadas diretamente por pessoas que nunca conseguiram esquecer o que viram.

O depoimento de Adalberto é um exemplo disso. Ele não apenas ouviu falar da tragédia: afirma ter presenciado a segunda queda. Para ele, o tempo não foi suficiente para apagar a imagem daquele dia.

E talvez seja justamente essa uma das características das histórias de memória.

Elas sobrevivem nas lembranças de quem estava lá.

O Edifício Caricé continuou fazendo parte da paisagem de João Pessoa. A cidade mudou, o Centro mudou e novas gerações passaram a circular diariamente diante de sua fachada.

Mas, para aqueles que conheceram as famílias, acompanharam a movimentação naquele dia ou simplesmente testemunharam a comoção provocada pela tragédia, o Caricé nunca foi apenas um prédio.

É também um lugar de memória.

Um endereço associado a duas crianças, duas famílias e a uma história que atravessou décadas.

Hoje, olhando para o edifício, é possível enxergar apenas uma construção que ajudou a marcar o início da verticalização de João Pessoa.

Mas, por trás de suas paredes, permanece uma história contada por quem viveu aqueles dias — uma história de tragédia, suspeitas, comoção e lembranças que o tempo ainda não conseguiu apagar.



Esta reportagem de memória foi construída a partir do levantamento histórico do professor e historiador Emílio (@emiliohistoriador), de relatos publicados por pessoas que viveram os acontecimentos e de testemunhos preservados ao longo dos anos. Nos pontos em que não foi possível localizar documentação oficial acessível, as informações são apresentadas como relatos e versões de pessoas ligadas à história.


 


 

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