Michelle Bolsonaro deixa o PL Mulher e agrava crise com Flávio
ANÁLISE | Crise no bolsonarismo expõe disputa por liderança e pelo eleitorado feminino
A decisão da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro de deixar a presidência do PL Mulher representa um dos episódios mais delicados da reorganização política do bolsonarismo desde que Jair Bolsonaro passou a cumprir prisão domiciliar. Embora a justificativa oficial seja a necessidade de dedicar mais tempo à família, os bastidores revelam um cenário de forte desgaste interno, marcado por divergências estratégicas e disputas de influência dentro do grupo político.
Nos últimos meses, Michelle vinha sendo apontada como uma das principais lideranças do PL, sobretudo por seu trabalho à frente do segmento feminino da legenda. Sua atuação ajudou a ampliar a presença do partido entre o eleitorado feminino, um segmento que historicamente apresenta menor identificação com Jair Bolsonaro do que o eleitorado masculino.
Por isso, sua saída da presidência do PL Mulher tem um peso político que vai além da questão administrativa.
A disputa pelo comando do bolsonarismo
O episódio evidencia uma questão que já vinha sendo observada por analistas políticos: quem exercerá a liderança do campo bolsonarista durante o processo eleitoral de 2026?
Sem Jair Bolsonaro apto a participar diretamente da disputa presidencial, diferentes nomes passaram a ocupar espaço no debate interno.
Flávio Bolsonaro aparece como um dos principais pré-candidatos à Presidência da República, enquanto Eduardo Bolsonaro mantém forte atuação política e intensa presença nas redes sociais. Michelle Bolsonaro, por sua vez, consolidou-se como uma liderança com identidade própria, especialmente junto ao público evangélico e às mulheres.
A convivência entre essas lideranças, no entanto, passou a apresentar sinais de desgaste.
O fator redes sociais
Segundo relatos divulgados por veículos de imprensa, um dos pontos de tensão foi a ausência de uma manifestação mais firme de Flávio Bolsonaro contra ataques dirigidos a Michelle por apoiadores ligados ao deputado Eduardo Bolsonaro.
Os ataques ocorreram principalmente nas redes sociais e envolveram influenciadores brasileiros que vivem no exterior.
Embora não haja confirmação pública de que esse tenha sido o único motivo da crise, a sequência dos acontecimentos demonstra que a disputa extrapolou os bastidores partidários e passou a ocorrer também no ambiente digital.
O peso do eleitorado feminino
Outro aspecto importante é o impacto eleitoral.
Pesquisas realizadas ao longo dos últimos anos mostram que o eleitorado feminino costuma apresentar comportamento diferente do masculino nas eleições presidenciais.
Michelle Bolsonaro tornou-se uma das principais pontes entre o bolsonarismo e esse segmento.
Sua atuação em agendas religiosas, sociais e familiares ampliou sua visibilidade nacional e passou a ser considerada um dos principais ativos eleitorais do grupo político.
É justamente por isso que aliados atuaram para evitar uma ruptura definitiva com o PL.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, lideranças como a senadora Damares Alves e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão, trabalharam para convencer Michelle a permanecer no partido, ainda que deixasse a presidência do PL Mulher.
Reflexos para 2026
A crise ocorre em um momento especialmente sensível.
Com Jair Bolsonaro afastado do centro da disputa eleitoral, o grupo precisa construir uma nova estratégia para manter sua competitividade nacional.
Ao mesmo tempo, enfrenta investigações envolvendo aliados e tenta administrar divergências internas sem comprometer a imagem de unidade construída nos últimos anos.
Para cientistas políticos, divisões públicas costumam representar um desafio para qualquer grupo político, especialmente em períodos pré-eleitorais. Elas podem dificultar a coordenação das campanhas, gerar mensagens contraditórias para o eleitorado e abrir espaço para disputas por protagonismo.
O que observar daqui para frente
Os próximos movimentos de Michelle Bolsonaro serão acompanhados de perto.
Embora tenha deixado a presidência do PL Mulher, ela permanece filiada ao partido e continua sendo apontada como possível candidata ao Senado Federal.
Ao mesmo tempo, será importante observar se a crise permanecerá restrita ao ambiente interno ou se produzirá efeitos concretos sobre a estratégia eleitoral do bolsonarismo para 2026.
Independentemente dos desdobramentos, o episódio revela que, além da disputa entre governo e oposição, a eleição de 2026 também será marcada por disputas dentro dos próprios campos políticos. A forma como essas lideranças administrarão suas diferenças poderá influenciar a capacidade de mobilização de seus eleitores e a construção de alianças nos próximos meses.